Para aqueles que não sabem, passei os últimos três meses em Londres, em um programa de intercâmbio. Além de apreender inglês, tive a oportunidade de viajar e, como não poderia deixar de ser, conferir a estória por trás de alguns livros. E foi assim que surgiu a coluna Viagem Literária que será publicada uma vez por semana, pelo período aproximado de dois meses.
Atenção: este post contém SPOILERS de Anjos e Demônios. Se você não leu o livro, aconselhamos que não leia este post.
Sim, sim, eu admito: fui nerd o suficiente para percorrer o Caminho da Iluminação citado no livro Anjos e Demônios. E sinto-me obrigado a tirar o chapéu para Dan Brown:
montar o quebra cabeça que ele montou, unindo igrejas e monumentos a uma série
de intrincados enigmas criados para uma estória de ficção não é para qualquer
um.
Se você não lembra do livro, façamos uma breve recapitulação: além do tubo de antimatéria escondido no Vaticano, quatro cardeais foram sequestrados e seriam assassinados nos Altares da Ciência. Robert Langdon lembra do mítico Caminho da Iluminação, composto por quatro igrejas — também conhecidas como Altares da Ciência, as quais homenageariam os elementos terra, ar, fogo e água — que conduziriam à Igreja da Iluminação, local onde pensadores e cientistas poderiam discutir suas ideias sem temer a represália do Vaticano. Para encontrar a primeira igreja, Galileu teria incluído no livro Diagramma della Veritá os seguintes versos (segno):
Da tumba terrena de Santi com a cova do demônio
Através de Roma se estendem os místicos elementos
O caminho da luz está preparado, o teste sagrado
Que os anjos o guiem em sua busca sublime
Langdon imagina que o primeiro marco da ciência seria o
Panteão, onde o famoso pintor e arquiteto Rafael Santi está enterrado. Todavia,
Vittoria — parceira de Robert nesta aventura — percebe que Rafael foi levado para o local em 1758, cerca de cem anos
após o livro ter sido escrito. Registre-se que a placa no Panteão informa que o corpo do
pintor foi levado para o local imediatamente após a sua morte, em 1520 (licença poética, será?).
Os personagens então se dão conta que o segno se refere a
uma capela mortuária projetada por Rafael: a Capela Chigi, localizada no interior da Igreja de Santa Maria del Popolo. O corpo do cardeal é encontrado na "cova do demônio", expressão utilizada para indicar um ossário anexo à capela. No interior da Capela Chigi se encontra a famosa estátua de Bernini "Habacuque e o
Anjo".
Seguindo a direção apontada pelo anjo (lembre-se do verso: que os anjos o guiem em sua busca sublime) encontramos apenas uma igreja que existia nos tempos de Bernini: a Basílica de São Pedro. Em frente à Basílica, no centro da Piazza São Pedro, está o obelisco egípcio trazido por Calígula, e ao seus redor encontram-se dispostas inúmeras placas elípticas. O monumento feito para marcar
o Altar da Ciência em homenagem ao vento é uma placa que retrata o West Ponent (ou Respiro de Dio). Infelizmente, o local estava isolado, de
modo que não consegui tirar nenhuma foto da placa. Porém, quem tem Google tem
(quase) tudo.
As cinco linhas que saem da boca do anjo seguem até a Igreja de Santa Maria della Vittoria,
onde se encontra a controversa escultura “O Êxtase de Santa Teresa”. Diz a lenda que Teresa de Ávila teve uma visão de um anjo, o qual introduzia uma flecha em chamas no seu coração, deixando-a "abrasada em grande amor de Deus". A escultura de Bernini, todavia, interpretou a experiência de Teresa de Ávila de uma forma mais caliente, digamos.
Diz o livro que a flecha do anjo aponta para a Igreja de Santa Inês em Agonia (segundo o meu senso de direção, a flecha aponta para outro sentido), situada em frente
a famosa Piazza Navona, onde se encontra a Fonte dos Quatro Rios. Dessa vez,
quem indica a direção a ser seguida é a pomba (conhecida como anjo da paz na simbologia pagã) no
alto do obelisco criado por Bernini.
Chegamos agora ao Castelo Santo Ângelo (novamente, meu senso de direção diz que a pomba aponta para outro sentido), a Igreja da
Iluminação e base utilizada pelo assassino. O castelo ganhou este nome em virtude da aparição do arcanjo Miguel no seu topo, motivo pelo qual há uma escultura do anjo eternizando a visão do Papa Gregório I. Atualmente o castelo funciona como
um museu, fato este inclusive mencionado no livro.
Mesmo não sendo católico, entrar na Basílica de São Pedro é emocionante. Se você tiver fôlego, não deixe de subir os mais de 500 degraus para chegar na cúpula (se você não for pão duro como eu, é possível subir de elevador até a primeira parada, o que equivale a cerca de 200 degraus, mais ou menos), pois a vista da cidade é espetacular. Mas esteja preparado para subir uma escadaria estreita e com paredes inclinadas, combinação contra indicada para aqueles que sofrem de claustrofobia.
O Museu do Vaticano é gigante e no dia que fui estava lotado (quando digo lotado é lotado mesmo, algo do tipo ônibus em horário de pico, quando você sequer tem espaço para mexer os braços), tanto é que fiquei mais de duas horas na fila. Era tanta gente que não deu para aproveitar muito, mas entrar na Capela Sistina (isso mesmo, o acesso à Capela Sistina é pelo Museu do Vaticano) e poder admirar a obra prima de Michelangelo não tem preço.
O Museu do Vaticano é gigante e no dia que fui estava lotado (quando digo lotado é lotado mesmo, algo do tipo ônibus em horário de pico, quando você sequer tem espaço para mexer os braços), tanto é que fiquei mais de duas horas na fila. Era tanta gente que não deu para aproveitar muito, mas entrar na Capela Sistina (isso mesmo, o acesso à Capela Sistina é pelo Museu do Vaticano) e poder admirar a obra prima de Michelangelo não tem preço.
O Castelo Santo Ângelo me frustrou um pouco, visto que não são todas as alas abertas para visitação. Il Passeto, ponte que liga o castelo ao Vaticano (criado para ser uma rota de fuga para os papa), estava fechado ao público para manutenção.
Se você quiser visitar a Necrópole e a tumba de São Pedro (situadas abaixo da Basílica), basta enviar um email para o Vaticano. Mas se programe com antecedência. Eu descobri que era possível visitar a Necrópole um dia antes de embarcar para Roma, mas ainda enviei o email pedindo se havia vagas disponíveis para os dias em que estaria na cidade (nunca se sabe, né?). Como são admitidas apenas 250 pessoas por dia, não foi exatamente uma surpresa ter meu pedido denegado. Para mais informações, visite o site do Escritório de Escavações do Vaticano.

Aguardo vocês na semana que vem para nossa próxima Viagem Literária. Dessa vez o destino será Londres.



























